Entre o “já vou” e o “tô indo”: a disputa pela sua atenção
- Prof Mauro Bonfim

- há 1 dia
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Atualizado: há 17 horas
Sentindo-se exausto mesmo sem sair do lugar? Entenda como a disputa pelo seu foco afeta a saúde mental e aprenda estratégias para retomar o controle.
Sabe aquela sensação de que o dia mal começou e a cabeça já está pesada, como se o “disco rígido” estivesse lotado? Você acorda, pega o celular para checar a hora e, cinco minutos depois, já consumiu três manchetes trágicas, duas fotos de viagens alheias e um e-mail de trabalho que poderia esperar. Antes mesmo de sair da cama, sua energia mental já sofreu o primeiro desconto do dia.
Para muita gente, especialmente para quem estuda ou trabalha com conhecimento, essa é a regra, não a exceção. Antigamente, o grande desafio da humanidade era a falta de informação. Quem tinha acesso a livros e dados detinha poder. Hoje, o jogo virou de ponta-cabeça. Informação é o que não falta; ela é abundante, barata e jorra de todas as telas.
O que se tornou raro, caro e extremamente disputado é a sua atenção.

Não é por acaso que esse cansaço mental constante aparece. Vivemos imersos na chamada economia da atenção, um cenário onde empresas, algoritmos e notificações disputam cada segundo do seu foco como se fosse ouro. E, no meio desse tiroteio de estímulos, fica a pergunta: como manter a conexão e a informação sem pifar o cérebro?
Quando a "Intoxicação Digital" bate à porta
Vamos imaginar uma rotina comum hoje em dia. Pense em alguém com uma carreira ativa, que tem curiosidade e receio de ficar para trás. O navegador dessa pessoa tem, neste exato momento, dezenas de abas abertas. São artigos que “precisa ler”, vídeos salvos para “ver mais tarde” e ferramentas novas que prometeram revolucionar a produtividade.
Só que essa conta não fecha. O termo intoxicação digital (ou sobrecarga cognitiva) descreve bem esse estado de travamento mental. Estamos tentando processar um volume de dados que o nosso cérebro biológico, evoluído para lidar com o "aqui e agora" e não com feeds infinitos, simplesmente não comporta.
Um exemplo marcante disso ocorreu recentemente em um famoso reality show brasileiro (BBB). Ao desistir do programa, uma participante chamou a atenção não apenas pela pressão do jogo, mas pela fala reveladora: a necessidade desesperada de ver alguém conhecido e, especificamente, de acessar o celular. Aquilo foi um grito que ecoou a realidade de muita gente: a sensação de que, sem a validação da tela ou o fluxo constante de informações, a própria existência parece incompleta ou insuportável.
O excesso gera um paradoxo cruel: quanto maior o consumo de informação na busca por segurança, maior a ansiedade. É a exaustão de nunca conseguir zerar a lista, de sentir que sempre se deve atenção a algo ou a alguém.
"Já vou" ou "Tô indo"? A presença ausente
Essa disputa pela atenção não afeta apenas o indivíduo isolado, ela reconfigura as relações dentro de casa. Lembra quando as pessoas sentavam à mesa e apenas... conversavam? Hoje, é comum vermos famílias inteiras fisicamente juntas, mas digitalmente separadas.
Existe uma cena clássica que ilustra bem isso: o famoso “já vou” dito por crianças e jovens quando alguém da família chama. Diferente do “tô indo” — que indica movimento e ação imediata —, o “já vou” virou um código para "estou preso aqui". O corpo está na sala, mas a mente foi capturada por um vídeo curto ou uma partida online. Como aponta o professor Mauro Bonfim, estamos trocando o olhar no olho pela notificação na tela, normalizando um cenário onde a presença física não garante a presença real.

Não é falta de disciplina, é design
É fácil cair na culpa. Pensar "eu deveria ter mais foco" ou "preciso parar de procrastinar". Mas vamos ser realistas: a briga é desleal.
Do outro lado da tela, existem equipes inteiras de engenharia e ciência comportamental desenhando plataformas feitas para sequestrar instintos. O scroll infinito, as cores vibrantes das notificações, a validação social dos likes... tudo isso explora vulnerabilidades psicológicas humanas. O medo de ficar de fora (o famoso FOMO) não é um defeito pessoal; é uma alavanca que as redes sociais puxam o tempo todo para garantir a permanência na plataforma.
Herbert Simon, visionário que já falava sobre isso na década de 1970, matou a charada muito antes da internet moderna: a riqueza de informação cria a pobreza de atenção. Se gastamos energia reagindo a tudo que apita no bolso, sobra muito pouco recurso cognitivo para o que realmente importa: criar, refletir, decidir e estar presente nas relações.
A saída: Terceirizar a memória para retomar a autonomia
A boa notícia é que não é preciso jogar o celular no rio e viver em isolamento para resolver isso. A tecnologia não é a inimiga; o inimigo é o uso passivo e reativo que fazemos dela.
A chave para lidar com esse volume insano de dados é parar de tentar guardar tudo na cabeça. O cérebro humano é uma máquina fantástica para ter ideias, mas péssima para armazená-las em massa. É aqui que entra o conceito de Segundo Cérebro Digital ou Gestão Pessoal do Conhecimento.
Imagine que, em vez de tentar memorizar cada artigo interessante, cada referência ou cada tarefa, você tenha um sistema externo confiável para isso. Pode ser um aplicativo de notas, um caderno bem organizado ou uma ferramenta digital específica. A ideia é capturar a informação e tirá-la da mente, arquivando-a onde se sabe que será encontrada depois.
Quando entendemos que não precisamos saber tudo agora, mas apenas saber onde encontrar quando precisar, o peso sai das costas. Deixamos de atuar como um “HD lotado” e voltamos a processar com agilidade, focando em conectar ideias e não apenas em acumular dados.
Estratégias para esvaziar a mente (sem desconexão total)
Para sair do modo “zumbi de rolagem” e assumir a tal soberania da atenção, precisamos de táticas de guerrilha no dia a dia.
Primeiro, tente reduzir os pontos de entrada. Se as informações chegam por e-mail, WhatsApp, Telegram, Slack e três redes sociais diferentes, o caos está instaurado. A sugestão é centralizar. Escolha um ou dois lugares para revisar o que é importante e ignore o resto sem piedade.
Outra mudança fundamental é criar barreiras de tempo. A tecnologia tende a ocupar todo o espaço disponível se deixarmos. Experimente definir blocos: "Vou ler notícias por 20 minutos após o almoço". E só. Transforme o consumo de informação em uma atividade com início, meio e fim, e não um ruído de fundo contínuo.
Por fim, adote o hábito de filtrar antes de consumir. Antes de clicar naquele link ou abrir o vídeo recebido, vale a pergunta: "Isso vai ser útil para meus projetos, meu bem-estar ou meu aprendizado? Ou é apenas ruído?". Aprender a ignorar é, hoje, uma das habilidades mais sofisticadas de inteligência digital.
Que escolhas você quer fazer?
Recuperar a autonomia sobre a nossa atenção é, no fundo, um ato de resistência e de saúde mental. É decidir que as próximas duas horas serão ditadas pelos seus objetivos e valores, e não pelo algoritmo de uma rede social que lucra com a distração alheia.
Se você se reconheceu nessa busca por uma eficiência mais humana e menos performática, convido você a explorar outros horizontes aqui no ELCdigital. Nossa missão é fornecer as ferramentas para que você ocupe seu lugar de destaque no mercado, sem precisar se encaixar em molduras que não foram feitas para você. Continue navegando pelos nossos artigos e descubra novas formas de potencializar sua carreira e sua mente, respeitando sempre o seu próprio ritmo.
Por Mauro Bonfim – texto elaborado com apoio de inteligência artificial e revisão da equipe da ELCdigital.




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